Como se Fosse a Primeira Vez
Ester Tavares
A primeira coisa que percebo é que estou acordada.
Por que estava dormindo ou como dormi nessa cama? Essa parte eu não sei.
Em seguida, percebo que estou em um quarto, que é particularmente bem estiloso, quem decorou deveria se orgulhar do trabalho que fez.
É quase como se eu mesma tivesse feito, mas não tenho nenhuma certeza sobre isso. Analisando a decoração, vejo coisas que acho que deveriam ser familiares, mas não consigo lembrar de nada em especial, na verdade, não tenho memória nenhuma.
Antes de me desesperar por ter dormido em um lugar desconhecido, vejo o que tenho ao meu redor: um armário de três portas com espelho, onde consigo ver meu reflexo, e percebo que se conseguir sair daqui, tenho que arrumar esse ninho que está o meu cabelo. Acho que também preciso ver se dentro do armário tem algo melhor para vestir, essa roupa que dormi não é muito digna pra olhares desconhecidos e potencialmente curiosos.
Ao lado, vejo a porta aberta do que parece ser um banheiro (Ufaa), e ao lado uma porta fechada, que provavelmente deve dar em outro cômodo, mas que também não sei qual é. Mas como eu cheguei aqui sem passar por ele ? E se passei, por que não lembro qual é ?
Continuo explorando, encontro uma bolsa, um copo vazio, itens de higiene pessoal, um cabideiro, uma cômoda, um cd escrito para você, uma par de pantufas, pera, que cd é esse ?
Está escrito “Para Você”, e não tem mais ninguém além de mim aqui, então… Mas onde vejo isso ?
Olhando mais ao lado, vejo uma tv e um aparelho de dvd, só pode ser ali.
Ligo a tv com o controle que encontro na lateral e insiro o cd no entrada, e então… Eu apareço na tela. Pelo menos, o recado deve ser de mim pra mim mesma.
- Bom dia, Ester, tudo bem ?
Esse é o meu nome, então ?
- Sim, esse é o seu nome.
Pelo menos eu sei como minha cabeça funciona, que deve ser muito mal
- Não, sua cabeça não está ruim, pelo menos não ficou assim, a gente meio que tem isso de nascença. Que animador.
- Vamos ao o que interessa, o nosso cérebro meio que formata quando a gente dorme, por isso você não lembra como chegou nesse quarto, nem o que fez antes, ele apaga todas essas informações, pelo visto nosso cérebro guarda só informações muito bem estabelecidas, como nome de objetos ou como as coisas funcionam, mas acha que saber como aprendemos isso não é relevante o bastante pra ser guardado.
Aahhh, por isso eu sei o que são todas as coisas no quarto. Poxa cérebro, eu queria lembrar disso.
- Essa é o nosso quarto, que dividimos com nossa melhor amiga, a Safira, ela sabe da nossa condição e vai te ajudar a se situar do resto dos afazeres do dia de hoje. Nós trabalhamos em uma editora de livros, e seu trabalho é revisar textos, conhecimentoque seu cérebro não excluiu, ainda bem. É com esse emprego que mantemos essa casa, então vá se arrumar pra não se atrasar. Um xero. Pelo visto, essa é a minha vida. Acordar sem memória, viver o dia, dormir e esquecer de tudo.
E no dia seguinte, repete o ciclo. Será que ninguém inventou uma cura pra isso ainda ? Bem, se tivesse, eu lembraria, por que estaria curada.
Bom, melhor seguir meu próprio conselho, se for esperar minha memória voltar, talvez fique aqui pra sempre.
Como trabalho em uma editora de livros, acho que o código de vestimenta não seja tão rígido, então visto o conjunto de moletom mais bonitinho que acho no armário e vou pro banheiro me arrumar. Pelo menos, aparento me cuidar bem pela quantidade de produtos em cima da pia do banheiro.
Me arrumo, tomo coragem e abro a porta e me deparo uma escada, desço e vejo aquela que deve ser a Safira, acho que consigo ver por que é minha melhor amiga, ela claramente tem um ótimo senso de estilo e uma grande juba que acho belíssima. Provavelmente ela me recomendou aqueles produtos pra cabelo.
- Então hoje estamos na vibe do moletom arrumado, perfeito, tenho zero intenções de ser muito ousada hoje.
Tá, ela realmente me conhece, e pelo visto, mesmo que de forma inconsciente, pareço ter lgum tipo de padrão de comportamento que ela consegue diferenciar. Ao menos um pouco de normalidade do meu cérebro.
Bom, lá vou eu descobrir a minha vida.