Há algum tempo, um inventor criou muitas coisas; entre elas, um homem. Concedeu-lhe orgãos, vida e intenção. Contudo, sua obra permaneceu inacabada: o inventor era velho e morreu antes de concluir a criatura que havia criado. Assim, deixou-o sozinho, incompleto. Seu nome era Edward. Em vez de mãos, possuía tesouras; o rosto era marcado por cicatrizes, e sua companhia mais constante era o silêncio.
Edward, embora calado, era intensamente presente. Seus olhos pareciam atravessar a alma, enquanto seus ouvidos permaneciam atentos aos ruídos e movimentos do mundo. O silêncio, em sua narrativa, torna-se um espaço de acolhimento da alteridade. Em um mundo atroz, tomado pela verborragia, poucos são aqueles que verdadeiramente se dispõem a escutar.
Em determinado momento, Pegg Boggs pergunta o que lhe acontecera. Edward responde, taciturnamente:
— Estou inacabado.
Talvez uma das respostas mais profundamente perlaborativas do cinema, pois, diante da finitude da vida, quem está realmente pronto? Quem pode dizer-se concluído? Resta-nos sempre algo entre o excesso e a falta: o vazio, as destraduções, os sentidos que transbordam e aqueles que jamais se completam. Edward Mãos de Tesouras é, de longe, meu filme predileto, porque me ensinou, desde muito cedo, que o silêncio pode, e talvez deva, ser experienciado e respeitado. O silêncio é uma arte em tela, um território onde a verdade encontra espaço para emergir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário