O livro Roteiro para audiovisual de Gian Danton, além de funcionar como um verdadeiro manual para quem entende pouco ou nada sobre cinema através de uma linguagem simples e direta, em diversos trechos enaltece a escrita criativa e promove o exercício da criatividade para a construção de um bom roteiro. O autor, que cita em quase todos os elementos o seu curta-metragem Magrela, faz questão de ressaltar que é possível construir histórias incríveis a partir da observação diária. Ao decorrer da leitura do roteiro, torna-se impossível não lembrar das produções já assistidas e identificar em cada uma delas os elementos citados pelo autor, ao mesmo tempo em que a compreensão sobre o propósito da utilização de tais elementos fica mais clara para quem costuma assistir a filmes somente como passatempo, que permite compreender melhor a intenção das histórias em relação ao espectador a partir do conhecimento sobre as jornadas dos personagens, os recursos e estruturas narrativas, entre outros tópicos. Com base na compreensão destes elementos de roteiro, os filmes passam a fazer mais sentido para quem assiste.
Um dos pontos que chama mais atenção no roteiro é o uso da estratégia de experiência de catarse para o público, por meio do processo de auto-identificação e projeção com o protagonista, fazendo o espectador experimentar o mesmo sentimento que o personagem.
Entender a utilização deste e outros métodos mencionados por Gian, faz expandir em maior nível a percepção a ciência que está por trás do cinema, além de reforçar que qualquer elemento, ação ou objeto que compõe um filme não está simplesmente jogado na história (ou pelo menos não deve estar), mas que funcionam como peças, cada uma com sua importância, que no final constroem um grande quebra-cabeça, junto a utilização de ganchos e da verossimilhança. Neste sentido, os recursos narrativos também são um ponto importante a ser destacado, pois grande parte do público geral, está acostumado a assistir filmes com narrativa linear por ser a mais comum, e assim, acabamos tendo mais dificuldade em compreender os filmes que utilizam o looping como recurso principal, por exemplo, já que exige um pouco mais de atenção do espectador.
Em síntese, o Roteiro para audiovisual, além de fazer o leitor enxergar o cinema sobre uma outra perspectiva, contribui também para a formação de um ponto de vista crítico sobre os filmes que estão dentro do nosso repertório. Será que os filmes que consideramos bons têm um bom roteiro? Será que os filmes que não gostamos, na verdade são geniais? Isso acaba despertando um interesse em não só consumir cinema cada vez mais, como também seguir o conselho do autor em ler os roteiros dos filmes após assisti-los. Sobretudo, chama atenção para o fato de que a partir da organização e construção de um bom roteiro, em conjunto com uma boa observação do mundo e das coisas que acontecem o tempo todo ao nosso redor, é possível construir histórias poderosas.

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