sábado, 30 de maio de 2026

Logan & Havana

 


ANDRESSA CAMILO

A placa neon do pet shop piscava em vermelho destacando que o estabelecimento funcionava 24 horas, enquanto ouvia-se o barulho dos carros e das sirenes espalhadas pela cidade. Logan permaneceu alguns segundos parado diante da entrada antes de empurrar a porta de vidro com o ombro, carregando a caixa de transporte onde Miles observava tudo com seus olhos atentos, completamente indiferente ao mundo lá fora.

O funcionário da recepção, como sempre, os cumprimentou em empolgação enquanto recebia o gatinho acinzentado e entregava um formulário qualquer para assinatura. Logan rabiscou o próprio nome sem realmente ler o que estava escrito, guardou a caneta no balcão e voltou para a rua depois de avisar que buscaria Miles à noite.

A cidade já estava sufocante àquela hora da manhã.

Os letreiros luminosos, os motores, as conversas atravessadas, os passos apressados e os inúmeros rostos desconhecidos se acumulavam ao redor dele como uma massa viva impossível de ignorar, e Logan sentia a exaustão surgir cedo demais todos os dias, como se acordar já significasse iniciar uma batalha silenciosa contra o simples fato de existir no meio de tanta gente.

Desceu as escadas da estação de metrô ajustando a mochila nos ombros e mantendo os olhos fixos no chão, numa tentativa quase automática de evitar qualquer interação desnecessária, embora soubesse perfeitamente que aquilo dificilmente impediria Lenny de encontrá-lo.

E, como sempre, não impediu.

— Logan!

A voz surgiu acima do barulho do trem que chegava à plataforma, alta o bastante para fazê-lo fechar os olhos por um instante em resignação silenciosa.

Lenny vinha em sua direção, usando um casaco amarelo chamativo até demais para qualquer ambiente minimamente normal, sorrindo com a familiaridade irritante de alguém que acreditava genuinamente existir intimidade entre os dois apenas porque compartilhavam o mesmo trajeto diariamente.

— Cara, você viu o jogo ontem? Aquilo no segundo tempo foi absurdo, eu fiquei pensando…

Logan não respondeu.Nunca respondia muito.

Ainda assim, Lenny continuava falando sem qualquer constrangimento, como se o silêncio do outro fosse apenas uma pausa natural da conversa e não uma tentativa extremamente clara de encerrá-la antes mesmo de começar.

[...]

Quando finalmente atravessou as portas de vidro do prédio da agência de marketing, Logan sentiu aquele breve alívio mecânico de sempre, embora o ambiente corporativo da empresa estivesse longe de ser confortável. O enorme saguão iluminado por telas digitais, os slogans motivacionais espalhados pelas paredes e o cheiro constante de café criavam uma atmosfera artificial demais até para os padrões daquele tipo de lugar, como se tudo ali tivesse sido projetado para parecer importante sem realmente ser.

Logan trabalhava no setor de análise de dados e era excepcionalmente competente naquilo que fazia. Conseguia interpretar tendências, prever comportamentos de consumo e desmontar relatórios complexos em poucas horas, habilidades que faziam dele uma peça valiosa para a empresa apesar da dificuldade quase absoluta em estabelecer qualquer relação social dentro do escritório.

A única exceção era Havana.

Talvez porque, diferente dos outros, Havana nunca forçasse conversas desnecessárias nem demonstrasse desconforto diante do silêncio. Ou talvez porque Logan simplesmente gostasse dela muito mais do que gostaria de admitir para si mesmo.

Naquela manhã, porém, ele foi obrigado a participar de uma reunião de marketing completamente inútil para alguém do seu departamento. Um telão gigantesco ocupava a parede principal da sala enquanto executivos discutiam estratégias de divulgação urbana para a nova campanha publicitária da agência, analisando mapas da cidade e decidindo onde posicionariam estrategicamente os anúncios, em painéis digitais e pequenas placas promocionais espalhadas pelas avenidas.

No centro da apresentação havia uma imagem específica: um mosaico geométrico dividido em quatro partes aparentemente desconexas, mas que de alguma forma, em um movimento passavam a se encaixar.

Enquanto um dos gerentes falava empolgado sobre “impacto visual” e “presença de marca”, Logan permanecia afundado na cadeira observando apenas aquele mosaico, completamente desconectado da conversa ao redor. Não fazia sentido que estivesse ali e tinha mais o que fazer. Seu trabalho era analisar resultados, não ouvir discussões intermináveis sobre publicidade urbana.

Foi então que o celular vibrou discretamente sobre a mesa.

“Você podia pelo menos fingir interesse”.

Era Havana.

Logan ergueu os olhos imediatamente e encontrou o sorriso contido dela do outro lado da sala e digitou de volta:

“Gostaria de sumir daqui”.

Hesitou alguns segundos antes de completar:

“Ou melhor. Gostaria que todo mundo sumisse”.

Havana leu a mensagem e sorriu de verdade dessa vez.

E, sem perceber, Logan sorriu junto.

Talvez aquele tivesse sido o único momento genuinamente agradável de todo o dia.

Horas depois, já durante a noite, o escritório começou a esvaziar lentamente enquanto as luzes automáticas desligavam setores inteiros conforme os funcionários iam embora. Havana apareceu ao lado da mesa dele já vestindo o casaco e segurando a bolsa contra o corpo.

— Você não vai embora?

Logan sequer desviou os olhos da tela.

— Ainda preciso terminar uma análise.

Ela assentiu em silêncio.

— Boa noite, Logan.

— Boa noite.

Ele observou Havana desaparecer entre as divisórias do escritório e então voltou a encarar a tela iluminada à sua frente, o mosaico da campanha estava aberto no monitor.

Quatro peças desconexas e estranhas.

Havia tempo demais que ele estava olhando para aquilo.

As formas começaram lentamente a perder nitidez diante dos seus olhos cansados enquanto o som do ar-condicionado preenchia o enorme espaço vazio da empresa. Sem perceber exatamente o momento em que aconteceu, Logan acabou adormecendo sobre a cadeira.

Quando despertou, o escritório estava completamente escuro.

Por alguns segundos permaneceu imóvel, desnorteado, tentando compreender o próprio entorno enquanto o silêncio absoluto do ambiente parecia estranho demais para aquele horário. Então viu o relógio no monitor, o que era noite já avançava para madrugada. 

O pensamento em Miles atingiu Logan imediatamente, o fazendo levantar tão rápido que quase derrubou a cadeira, jogando notebook, carregador e papéis aleatórios dentro da mochila antes de correr em direção aos elevadores.

Mas alguma coisa estava errada, a recepção do prédio estava vazia. Não havia seguranças, não havia recepcionistas. Não havia ninguém.

As portas de vidro permaneciam abertas para a avenida deserta lá fora. E lá fora também não existia absolutamente nada. Nenhum carro, nenhuma buzina, nenhuma bicicleta e nenhuma pessoa.

A cidade inteira parecia abandonada.

Logan permaneceu imóvel na calçada durante alguns segundos, tentando racionalizar o que via diante de si enquanto um desconforto começava lentamente a surgir.

Mesmo assim, começou a andar. Talvez houvesse algum problema, um apagão, uma evacuação ou qualquer explicação lógica parecia melhor do que aceitar o silêncio absurdo que tomava conta de tudo.

Mas a estação de metrô estava vazia também.

Quando desceu até a plataforma, sentiu o estômago gelar ao encontrar um trem parado nos trilhos completamente apagado, sem luzes, sem passageiros e sem qualquer ruído mecânico funcionando em seu interior, como se tivesse sido abandonado no meio do caminho. 

Foi naquele instante que Logan compreendeu que aquilo não era normal e saiu dali imediatamente, precisava encontrar Miles e essa era a única coisa concreta à qual conseguiu se agarrar naquele momento.

Enquanto caminhava pelas avenidas vazias tentando ignorar o próprio desespero, seus olhos acabaram encontrando um outdoor digital aceso no meio de um cruzamento completamente deserto.

Era a campanha da agência, o mesmo mosaico. Mas agora, havia apenas uma das quatro peças na tela.


Após alguns segundos, uma frase surgiu logo abaixo da imagem:

“RESULTADO É A RESPOSTA.” - era a famosa logo da agência em que trabalhava. Logan permaneceu observando sem entender o significado daquilo até ouvir um grito distante ecoando entre os prédios vazios.

— LOGAN!

Ele fechou os olhos imediatamente, aquilo só podia ser algum tipo de castigo.

Quando virou o rosto, viu Lenny correndo desesperadamente em sua direção pela avenida, acenando como alguém que acabava de reencontrar outro sobrevivente após o fim do mundo.

— Cara, graças a Deus! Eu achei que tava sozinho!

Lenny parecia genuinamente aliviado, enquanto Logan, por outro lado, sentia apenas um cansaço profundo diante da ironia daquela situação.

Permaneceu alguns segundos encarando o rapaz antes de simplesmente virar as costas e continuar andando.

— Ei! Espera! Onde você tá indo?

— Buscar meu filho.

O silêncio atrás dele durou pouco.

— Você tem um filho?!

Logan continuou andando.

— É um gato.

— …você chama seu gato de filho?

Ele não respondeu.

[...]

Mesmo diante do cenário absurdo ao redor, Logan sentiu vontade de desaparecer apenas para não precisar continuar aquela conversa. A caminhada até o pet shop pareceu interminável.

A caminhada até o pet shop pareceu interminável, não apenas pela distância em si, mas porque a cidade, agora completamente vazia, parecia mais um labirinto, como se as ruas deixassem de obedecer à lógica habitual e começassem a se estender dobrar de tamanho conforme eram atravessadas, criando uma sensação constante de que o caminho era sempre maior do que deveria ser.

Lenny seguia ao lado de Logan com passos apressados demais para alguém que já demonstrava sinais claros de cansaço, ainda tentando sustentar algum tipo de leveza na conversa mesmo que sua voz começasse a falhar ocasionalmente entre comentários aleatórios que, em qualquer outro contexto, talvez fossem apenas irritantes, mas que ali, naquele silêncio urbano absoluto, acabavam parecendo quase irreais.

— Então… isso significa que você realmente chama o gato de filho? — ele perguntou depois de um tempo, como se aquilo fosse uma dúvida genuína e não apenas uma tentativa desesperada de manter algum vínculo verbal com o único outro ser humano visível na cidade.

Logan não respondeu, não porque não tivesse ouvido, mas porque qualquer resposta parecia exigir uma energia que ele já não tinha disposição de gastar.

O pet shop surgiu no fim da avenida como uma estrutura escura e silenciosa demais para um lugar que funcionava vinte e quatro horas por dia, e foi justamente essa ausência de luz, som ou qualquer sinal de vida que fez Logan desacelerar instintivamente antes de atravessar a rua em direção à porta de vidro.

Quando chegou, tentou abrir a porta imediatamente, puxando a maçaneta com força, depois empurrando, depois batendo com a palma da mão contra o vidro, como se a insistência pudesse alterar a realidade ao redor, mas tudo permanecia imóvel, sólido e indiferente, até mesmo o interior do estabelecimento parecia inexistente por trás da escuridão espessa.

— Ei, calma… — Lenny começou, mas parou ao perceber o estado de Logan.

— Miles… — Logan murmurou, pressionando a testa contra o vidro como se pudesse enxergar algo através da escuridão absoluta.

Ele tentou novamente, com mais força, mais desespero, mais violência, até que o som seco do impacto começou a ecoar pela avenida vazia sem qualquer retorno, e foi nesse momento que o controle que ele ainda tentava manter começou a se desfazer.

— Ele tá aqui dentro — disse Logan, mais para si mesmo do que para Lenny.

— Ou talvez não tenha ninguém aqui dentro — respondeu Lenny, com cautela, como alguém tentando não piorar uma situação que já estava claramente fora de controle.

— Ele tá aqui dentro!

O silêncio que veio depois foi longo o suficiente para tornar qualquer som da cidade inexistente ainda mais pesado.

Logan ficou imóvel por alguns segundos diante da porta, respirando de forma irregular, até finalmente recuar um passo e passar a mão pelo rosto, como se tentasse reorganizar mentalmente tudo aquilo que ainda parecia minimamente possível de ser compreendido.

— Temos que sair daqui — ele disse, num tom mais baixo, mas agora mais firme, como se tivesse decidido que a única alternativa aceitável era avançar em vez de permanecer preso àquele ponto.

— Sair daqui… tipo, da cidade? — Lenny perguntou, sem conseguir esconder a incredulidade.

— Isso não é normal — Logan respondeu, já se afastando do pet shop — e se não é normal, então existe uma estrutura por trás disso, alguma lógica, algum sistema, alguma coisa que explique o que está acontecendo.

Lenny ficou em silêncio por alguns segundos antes de simplesmente segui-lo, como se não tivesse outra escolha além de acompanhar o raciocínio de alguém que, naquele momento, parecia ser a única âncora possível em meio ao absurdo.A partir dali, começaram a caminhar sem direção definida, atravessando ruas inteiras que pareciam se repetir de forma sutilmente alterada, como se a cidade estivesse sendo reconstruída em pequenas variações enquanto eles avançavam, e foi nesse percurso que o primeiro indício de algo estruturado surgiu novamente na forma de um enorme outdoor digital ainda ativo no meio de uma avenida completamente deserta.

Os dois pararam ao mesmo tempo.

A campanha da agência estava lá outra vez, mas agora duas peças do mosaico apareciam conectadas, formando um fragmento mais coerente de uma imagem maior que ainda não se revelava por completo, enquanto abaixo delas a frase brilhava com uma clareza quase agressiva no contraste com o vazio ao redor.

“RESULTADO É O SEGREDO.”

Logan permaneceu olhando por tempo demais, como se estivesse tentando não apenas ler, mas interpretar algo escondido entre as formas geométricas daquilo que ele conhecia tão bem do trabalho, até que seus olhos começaram a acompanhar padrões, encaixes, possibilidades, como se a mente dele automaticamente retornasse ao único tipo de lógica que ainda fazia sentido.

— Isso não é só publicidade… — ele disse, finalmente, mais para si do que para Lenny.

— Claro que não é só publicidade — Lenny respondeu — a cidade inteira desapareceu, cara.

— Não! Eu quero dizer… isso está organizado.

Ele deu um passo à frente, observando com mais atenção, como alguém analisando um problema complexo que finalmente começava a revelar uma estrutura interna.

— Quatro partes… — continuou Logan, quase sussurrando — um resultado final…

Foi quando a ideia se formou de maneira completa o suficiente para ser verbalizada.

— Precisamos encontrar o mosaico completo.

— E isso significa o quê exatamente? — Lenny perguntou.

Logan não respondeu imediatamente, porque a resposta ainda soava absurda até mesmo dentro da própria lógica dele, mas ainda assim foi a única conclusão que conseguiu aceitar.

— Significa que isso aqui tem um centro. Um ponto final. Um “resultado” de verdade.

A partir desse instante, começaram a procurar.

A cidade, que já era estranha antes, passou a se comportar como um espaço deliberadamente resistente ao avanço deles, com ruas que levavam de volta aos mesmos pontos, passagens que terminavam em becos inexistentes momentos antes, escadas que pareciam surgir apenas para desaparecer quando retornavam ao mesmo local, como secada tentativa de progresso fosse suavemente desviada para impedir qualquer aproximação de um objetivo final.

O terceiro outdoor surgiu depois de um período impossível de medir, numa espécie de túnel urbano onde telas quebradas ainda piscavam fragmentos de luz, e dessa vez três partes do mosaico estavam conectadas, formando uma imagem ainda mais próxima de algo reconhecível, enquanto uma seta discreta apontava para frente, como se a própria cidade estivesse indicando o caminho sem nunca permitir que ele fosse simples.

Pelo menos, faltava somente o último. Mas em compensação, a procura por ele foi ainda mais exaustiva, estavam caminhando há horas e parecia cada vez mais difícil.

Foi ali que o desgaste começou a se acumular de forma mais evidente, não apenas no corpo, mas na forma como os dois reagiam um ao outro, já que Lenny tropeçava ocasionalmente no próprio ritmo da caminhada, esbarrando em estruturas abandonadas e comentando em voz alta sobre fome, sede e a estranheza de tudo aquilo com uma frequência cada vez maior, enquanto Logan tentava ignorar tudo isso e manter o foco apenas na lógica dos padrões que começava a enxergar com mais clareza para encontrar o último outdoor, embora a irritação fosse crescendo de forma silenciosa até atingir um ponto em que qualquer som adicional parecia excessivo.

— Você consegue parar de falar por alguns minutos? — Logan disse finalmente, sem levantar o tom de voz, mas com uma exaustão evidente.

— Eu literalmente não estava falando nada agora — Lenny respondeu imediatamente.

— Então pelo menos respira mais baixo.

— Isso não faz sentido nenhum.

Logan passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando impedir que a própria mente se dispersasse completamente.

— Eu devia ter ido sozinho!

O silêncio que veio depois foi mais pesado do que qualquer resposta poderia ser.
Lenny apenas o encarou por alguns segundos antes de continuar andando sem dizer nada.

A tensão entre eles se manteve até o momento em que finalmente encontraram o quarto outdoor, desta vez no topo de um edifício gigantesco, iluminando a cidade vazia como um farol artificial, e foi justamente nesse instante que a última peça do mosaico se encaixou, formando a imagem completa, agora claramente identificável como uma estrutura de passagem, algo que parecia ao mesmo tempo uma porta e um diagrama, enquanto a frase final pulsava abaixo com intensidade crescente.

“RESULTADO É O SEGREDO.”

Nenhum dos dois sabia exatamente qual seria a resposta, mas ambos começaram a correr em direção à grande tela brilhante imediatamente.A cidade parecia reagir ao movimento deles, como se o espaço ao redor começasse a se alinhar com a direção daquele objetivo final, ao mesmo tempo parecia que quanto mais corriam, mais longe pareciam estar.

A luz do painel preenchia os prédios ao redor enquanto eles atravessavam a avenida em disparada, e por um instante tudo pareceu finalmente fazer sentido dentro da lógica interna que Logan vinha construindo desde o início daquele evento impossível.

Até que, de repente, ele acordou.

Ofegante e confuso, com a luz fria do monitor que queimava seus olhos enquanto o escritório reaparecia lentamente ao redor.

O ambiente estava novamente escuro e silencioso. O relógio marcava 22:07 e isso
significava que ele havia dormido apenas três horas.

Logan permaneceu sentado durante alguns segundos tentando recuperar o fôlego antes de finalmente perceber que tudo não passou de um sonho, ou melhor: de um pesadelo. Dessa vez, porém, arrumou seus pertences devagar e foi caminhando em direção à saída do prédio, ainda desconfiado e esperando encontrar o vazio novamente, apesar de consciente.

Mas quando chegou ao térreo e as portas automáticas se abriram, o som da cidade atingiu seus ouvidos imediatamente: motores, conversas, buzinas, passos. Os ônibus atravessando as avenidas iluminadas. Pessoas andando de bicicleta, atravessando ruas, discutindo ao telefone, vivendo suas vidas caóticas e barulhentas como sempre fizeram. Logan permaneceu alguns segundos parado observando toda aquela confusão cotidiana diante de si.

Então, respirou aliviado e seguiu seu caminho.No dia seguinte, indo para o trabalho mais uma vez, tranquilo por Miles estar seguro em casa, Logan não deixou de abrir um pequeno sorriso quando viu Lenny entrar pela porta do metrô e olhar em sua direção.

entre a razão e a descoberta

 

Adsson Santos de Oliveira

A criatividade costuma ser tratada como algo extraordinário, quase como um dom reservado a poucas pessoas. Em muitos momentos ela é associada apenas à arte, à invenção ou a grandes ideias que parecem surgir de maneira repentina. No entanto, observar a criatividade apenas como talento natural acaba reduzindo sua complexidade. Criar é também um processo construído no cotidiano, ligado à forma como cada pessoa percebe o mundo, interpreta experiências e encontra caminhos diferentes diante de uma mesma situação. Mais do que um momento de inspiração, a criatividade nasce do encontro entre aquilo que sabemos e aquilo que ainda estamos dispostos a descobrir.

Esse processo envolve incorporar ao comportamento determinadas posturas que favorecem novas formas de perceber a realidade. A curiosidade, por exemplo, amplia o olhar e faz com que situações aparentemente comuns revelem sentidos inesperados. A sensibilidade permite perceber detalhes que normalmente passariam despercebidos. A flexibilidade ajuda a abandonar respostas prontas e aceitar que uma mesma questão pode ser observada por vários ângulos. A criatividade surge justamente nesse movimento de atravessar o conhecido sem se
prender completamente a ele. Não se trata apenas de imaginar algo diferente, mas de construir novas possibilidades a partir do que já existe. Por isso, criar não significa agir sem direção ou romper com tudo de maneira impulsiva. A criatividade não está no exagero nem no improviso vazio. Ela aparece quando conseguimos enxergar possibilidades onde outros enxergam apenas limites. Surge quando um problema deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser também uma oportunidade de reorganizar ideias. Muitas vezes está presente em atitudes simples: reinterpretar uma dificuldade, adaptar uma estratégia, relacionar conhecimentos distantes ou perceber uma conexão antes invisível.

Criar, nesse sentido, exige atenção e abertura. É menos sobre esperar por uma ideia brilhante e mais sobre desenvolver a capacidade de olhar com profundidade para aquilo que já está diante de nós. Essa mesma dinâmica pode ser observada nas produções artísticas. Embora muitas vezes a arte seja associada apenas à inspiração espontânea, grande parte do processo criativo exige observação, técnica e organização. O artista imagina, mas também analisa. Percebe, interpreta e reorganiza. A criação exige liberdade, mas também exige construção. Howard Gardner aponta que mesmo pessoas reconhecidas por sua criatividade utilizam a inteligência racional como parte fundamental de suas realizações. Isso acontece porque criar também envolve perceber conexões, interpretar símbolos, compreender contextos e transformar pensamento em algo concreto. O novo raramente nasce do vazio; ele geralmente surge da relação entre conhecimento acumulado e abertura para experimentar outras possibilidades.

No cotidiano, a criatividade também assume papel importante em diferentes espaços da vida. Na escola, ela favorece aprendizagens mais significativas e ajuda a encontrar soluções diante de desafios. No ambiente profissional, permite inovação e adaptação. Nas relações humanas, amplia a empatia e fortalece novas formas de comunicação. Até mesmo diante de conflitos pessoais, pensar criativamente pode representar a chance de romper padrões repetitivos e construir respostas mais conscientes. Em todos esses contextos, criar significa movimentar o pensamento, questionar certezas e permitir que novas perspectivas encontrem espaço.

Dessa forma, a criatividade pode ser compreendida como uma capacidade humana construída na relação entre experiência, conhecimento e sensibilidade. Ela não depende apenas de talento nem surge exclusivamente em momentos extraordinários. Está presente nas pequenas decisões, nas perguntas que fazemos, na maneira como observamos o mundo e na coragem de imaginar algo além do habitual. Quando razão e imaginação caminham juntas, surgem possibilidades de transformação que ampliam não apenas aquilo que produzimos, mas também a forma como compreendemos a nós mesmos e a realidade que nos cerca.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Roteiro para Audiovisual


 ANDRESSA CAMILO


O livro Roteiro para audiovisual de Gian Danton, além de funcionar como um verdadeiro manual para quem entende pouco ou nada sobre cinema através de uma linguagem simples e direta, em diversos trechos enaltece a escrita criativa e promove o exercício da criatividade para a construção de um bom roteiro. O autor, que cita em quase todos os elementos o seu curta-metragem Magrela, faz questão de ressaltar que é possível construir histórias incríveis a partir da observação diária. Ao decorrer da leitura do roteiro, torna-se impossível não lembrar das produções já assistidas e identificar em cada uma delas os elementos citados pelo autor, ao mesmo tempo em que a compreensão sobre o propósito da utilização de tais elementos fica mais clara para quem costuma assistir a filmes somente como passatempo, que permite compreender melhor a intenção das histórias em relação ao espectador a partir do conhecimento sobre as jornadas dos personagens, os recursos e estruturas narrativas, entre outros tópicos. Com base na compreensão destes elementos de roteiro, os filmes passam a fazer mais sentido para quem assiste.

Um dos pontos que chama mais atenção no roteiro é o uso da estratégia de experiência de catarse para o público, por meio do processo de auto-identificação e projeção com o protagonista, fazendo o espectador experimentar o mesmo sentimento que o personagem.

Entender a utilização deste e outros métodos mencionados por Gian, faz expandir em maior nível a percepção a ciência que está por trás do cinema, além de reforçar que qualquer elemento, ação ou objeto que compõe um filme não está simplesmente jogado na história (ou pelo menos não deve estar), mas que funcionam como peças, cada uma com sua importância, que no final constroem um grande quebra-cabeça, junto a utilização de ganchos e da verossimilhança. Neste sentido, os recursos narrativos também são um ponto importante a ser destacado, pois grande parte do público geral, está acostumado a assistir filmes com narrativa linear por ser a mais comum, e assim, acabamos tendo mais dificuldade em compreender os filmes que utilizam o looping como recurso principal, por exemplo, já que exige um pouco mais de atenção do espectador.

Em síntese, o Roteiro para audiovisual, além de fazer o leitor enxergar o cinema sobre uma outra perspectiva, contribui também para a formação de um ponto de vista crítico sobre os filmes que estão dentro do nosso repertório. Será que os filmes que consideramos bons têm um bom roteiro? Será que os filmes que não gostamos, na verdade são geniais? Isso acaba despertando um interesse em não só consumir cinema cada vez mais, como também seguir o conselho do autor em ler os roteiros dos filmes após assisti-los. Sobretudo, chama atenção para o fato de que a partir da organização e construção de um bom roteiro, em conjunto com uma boa observação do mundo e das coisas que acontecem o tempo todo ao nosso redor, é possível construir histórias poderosas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

a incerteza lúdica

 O jogo é a celebração da incerteza. 

Para fazer sentido, a incerteza é pedagógica, aprender é o objetivo do jogo. Aprender a perder, aprender a desistir, aprender a não desistir e, principalmente, aprender a ganhar. 

O ganho é a derrota passageira da incerteza. 

E o jogo ensina o fair-play, a incerteza lúdica, a ênfase no processo mais do que o resultado.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A vida em jogo


 Pedro Oliveira Neto

Viver em sociedade é, de muitas formas, participar de um jogo complexo, invisível e constante. Nele, cada indivíduo ocupa posições que mudam ao longo do tempo, enfrenta desafios impostos por estruturas sociais e precisa tomar decisões que impactam não apenas seu próprio caminho, mas também o do coletivo. A expressão “a vida em jogo” revela justamente essas tensões: a vida como algo que se disputa, que se negocia, que se coloca em risco e que se tenta valorizar em meio a pressões diversas.

Na sociedade contemporânea, a vida é posta em jogo quando as oportunidades não são igualmente distribuídas. O acesso desigual à educação, ao trabalho, à saúde e aos direitos básicos define quem avança e quem fica à margem. Muitas vezes, o mérito individual parece decidir tudo, mas por trás dele encontram-se condições sociais que influenciam profundamente o destino das pessoas. Nesse cenário, a sobrevivência pode se tornar um desafio diário, principalmente para aqueles que vivem em contextos de vulnerabilidade.

Além disso, a vida também é colocada em jogo na forma como lidamos com expectativas sociais. Há pressões para ser produtivo, bem-sucedido, competitivo e resiliente, como se a existência fosse uma corrida em que não é permitido parar. Essa lógica transforma a vida em um tabuleiro onde cada movimento é calculado, e o erro pode custar caro: desgaste emocional, adoecimento mental, frustração e sensação de insuficiência.

No entanto, mesmo em meio a essas dinâmicas, a sociedade também é lugar de encontros, trocas e solidariedade. Se a vida está em jogo, ela também está em constante reinvenção. As relações humanas, os movimentos sociais, a arte e a cultura criam espaços de resistência e possibilidades. Eles mostram que, embora existam regras inflexíveis, há também maneiras de uestionar, subverter e reconstruir o jogo. É nesta capacidade coletiva de transformar realidades que reside a esperança de uma vida mais justa.

Portanto, compreender a vida em jogo na sociedade é perceber que nossas escolhas e nossos caminhos não são apenas individuais, mas atravessados por fatores sociais, econômicos e culturais. É reconhecer que a vida vale mais do que qualquer competição e que o verdadeiro avanço acontece quando o jogo deixa de ser uma disputa desigual e se torna um espaço de convivência, dignidade e respeito para todos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Cordel da Subjetividade no Cinema

 


Marcos Vinicius


 

Na tela que brilha e fascina, 

o olhar se mistura ao enredo.

Tern plano que mostra o que e claro, 

tern mente escondendo o segredo.

Entre a câmera e a memória, 

surge o jogo dover com o medo.


lntriga nos traz o exemplo,

de um ponto de vista alinhado. 

Mas Nolan, Bunuel e Fellini 

fazem tudo ficar embaralhado. 

Misturam o real com o sonho, 

deixando o sentido dobrado.

 

'As vezes, o saber,e restrito, 

mas sem mente a nos revelar.

Como A beira do abismo nos mostra,

onde mal da pra escutar.

Já há filmes com vasto alcance 

que nos fazem par dentro olhar.


Flashbacks criam conexões, 

entre o antes, o agora e o porquê.

Sansho nos dá essa ponte

entre o filho e a mãe, sem clichê.

E em Hiroshima, a memória

e o que mais nos faz entender.

 

O sexto sentido desliza, 

entre over e o pressentir.

Nos mostra o valor da ausência,

no silêncio que faz refletir. 

Subjetivo não é só lembrar, 

É o jeito de nos conduzir.


No cinema, a mente é estrada 

e o olhar, um roteiro sem fim.

Entre a forma e a emoção contida, 

há um mundo dentro de mim.

Objetivo ou subjetivo, 

todo plano começa assim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

o sonho de mil gatos


 O DIA EM QUE MIL GATOS SONHAREM

"É o sábio que sonha ser uma borboleta ou a borboleta que sonha ser um sábio que sonhava que sonha ser uma borboleta?" (Pensamento atribuído ao Sábio chinês Chuang Tzu, no século IV a.C.).

O mundo dos sonhos sempre se apresentou ao homem como uma realidade paralela ao universo observado através dos sentidos. E, bem cedo, alguém deduziu que o universo deveria ser um sonho de Deus. E o Sonho adquiriu vida própria, para alegria do grande Sonhador, passando a ser modelado por sonhadores menores, os homens de espírito ou as criaturas criadoras. Destaque-se, no processo histórico de construção do grande sonho coletivo da humanidade, a contribuição de quatro sonhadores nesse inventário dos sonhos vivos: Platão, Santo Agostinho, Descartes e Castaneda.

Antes, no entanto, é preciso distinguir sonho pessoal de sonho coletivo.

1.       O sonho pessoal

Na Babilônia, na China, nos Vedas indianos, nas tradições indígenas das Américas, da África e da Oceania, e em todas as religiões que se tem notícia, os sonhos desempenham um papel fundamental. Os sonhos são a base de todos os sistemas de crença humanos. Campbell dizia que os “mitos são sonhos partilhados, sonhos são mitos privados”. Porém, na verdade, os povos possuem mitos e os sonhos possuem pessoas. Os sonhos são pessoais.

Na maioria das vezes, os sonhos pessoais são interpretados como mensagens cifradas dos deuses, dos ancestrais ou de seres malignos. E o Talmud diz que “um sonho não interpretado é como uma carta que não é aberta”. Os gregos (Hipócrates e Aristóteles) davam uma importância especial ao diagnóstico de doenças através do sonho. Artemidoro de Daldis, no século II d.C., distinguia o sonho comum, referenciado no passado biográfico; do sonho premonitório das ‘almas virtuosas’, referenciadas no futuro.

Na modernidade, para objetividade científica, o sonho, a mais subjetiva das atividades humanas, permaneceu sem sentido ou significado até que Sigmund Freud proclamou que “o sonho é a realização (simbólica) de um desejo (censurado)”.

Ou, mais precisamente: o sonho para Freud é um conglomerado de formações psíquicas moldado pela história biográfica pregressa do indivíduo, com múltiplos significados, que tem por função proteger contra a dor e satisfazer os desejos reprimidos pela censura.

Em A Interpretação dos Sonhos (1990), Freud lançou as bases da ciência hermenêutica moderna ao distinguir, na decifração de fenômenos oníricos, o conteúdo manifesto do latente ou oculto. Para ele, todo sonho seria ‘a realização simbólica de um desejo inibido’, mas nem sempre a expressão deste desejo é clara e inequívoca, ao contrário, haveria mecanismos psicológicos responsáveis pelo mascaramento simbólico dos impulsos recalcados. Freud chamaria esses mecanismos: condensação, deslocamento, processo de elaboração secundária, simbolismo e dramatização.

Por condensação se entende o processo segundo o qual um conteúdo manifesto apresenta mais de um conteúdo latente de forma simplificada. Já deslocamento, se define como o processo pelo qual a carga afetiva se destaca de seu objeto normal para fixar-se num objeto acessório. A elaboração secundária se revela como o processo pelo qual, à medida que se aproxima a vigília, a produção onírica é reorganizada por uma lógica racional. Assim, nos lembramos dos sonhos sempre de trás para a frente, apagando seus detalhes e paradoxos. A dramatização consiste no processo através do qual os conteúdos conceituais são substituídos por imagens visuais. A simbolização se distingue da dramatização porque a dramatização é pessoal; enquanto o símbolo é universal.

Para Freud, o processo de simbolização se explicaria ainda através da censura e dos quatro movimentos de defesa do ego diante da crueza dos seus instintos e desejos objetais: identificação, projeção, introjeção e sublimação. É necessário assinalar que a noção de sublimação na interpretação dos sonhos será o ponto central das divergências entre Freud e Jung, uma vez que o discípulo discordava que o simbólico fosse apenas um resultado do caráter determinista e compulsivo do inconsciente biograficamente recalcado. Jung viu nos sonhos de seus clientes elementos mitológicos organizados de num modo prospectivo (e, muitas vezes, premonitório) chegando à conclusão de que o inconsciente não é apenas uma mera instância de repetição do passado individual, mas comporta ainda a sua transcendência psíquica e fenômenos mais complexos, de caráter coletivo e transpessoal.

Para Jung, as imagens oníricas se oferecem como narrativa em que o protagonista é o próprio narrador: o sonhador. Do ponto de vista pessoal, há uma função psíquica compensatória entre as relações dos eixos Ego-Self e Consciência Individual-Inconsciente Coletivo. O sonho se apresenta sempre como uma mediação e uma compensação entre esses quatro extremos. Mas, há também uma função transcendente: aquele que presta atenção aos próprios sonhos entre em processo de desenvolvimento (a individuação) em que sua consciência se religa aos valores éticos e estéticos fundamentais da matriz arquetípica. Assim, o sonho, mais que expressão involuntária de um problema passado, é uma resposta elaborada pelo inconsciente, uma reorganização prospectiva, uma solução voltada para o futuro. (HALL,1985)

Ainda no âmbito da psicanálise, outras abordagens foram desenvolvidas recentemente como a de Tales Ab’Saber (2006). O ‘trabalho de sonho’ se torna um método de desenvolvimento ‘a dois’: tanto na transferência analítica inspirada em Bion (o analista sonha o sonho do analisado, e este, por sua vez, o toma como objeto de sonhação), como na mediação sujeito-objeto (na equiparação entre sonhar e brincar, entre o onírico e o lúdico) observada por Winnicott).

2.       O sonho para ciência

Mas foi no campo das Neurociências que o estudo dos sonhos pessoais mais prosperou. Em 1952, Leitman e Aserinsky (2003) estabeleceram, através de eletroencefalogramas, o ciclo fisiológico do sono, composto por pelo menos três estágios com diferentes propriedades neurofisiológicas: o estágio hipnagógico (início do sono em que os pensamentos consistem em imagens fragmentadas e pequenas cenas), o estágio do sono de ondas lentas (em que as ondas cerebrais do neo-cortex apresenta freqüências baixas e grande amplitude) e o estágio do sono REM (rapid eye moviment).

Durante a fase do sono REM ou sono profundo, o cérebro apresenta um funcionamento semelhante ao estado da vigília em momentos da maior atividade (confronto com perigo, luta pela sobrevivência, contato sexual iminente) – o que levou os cientistas a concluírem que os sonhos aconteciam exclusivamente neste estágio.

Durante duas décadas, o sono REM foi sinônimo fisiológico do sonho e a idéia de Freud, de que os sonhos são produzidos por processos mentais era compatível com o conhecimento científico do funcionamento cerebral.

Até 1977, quando Hobson e Mc Carley (1988) descobriram o modelo de ativação-síntese e de reciprocidade interação. Para eles, o cérebro liga impulsos sem sentido e sentimentos a impressões sensoriais e lembranças, produzindo uma narrativa coerente a partir do aleatório. Movimentos oscilatórios simples pela qual a consciência é ligada e desligada em intervalos de 90 minutos através da interação recíproca de substâncias químicas, que nada tem haver com processos mentais. Hobson e Mc Carley provaram que o sono REM não é o equivalente fisiológico do sonho. Por outro lado, os cientistas reduziram a atividade onírica a um mero epifenômeno subjetivo do sono, sem nenhuma importância, uma frivolidade sem sentido de nossa mente.

Nos anos 90, Solms (1997), através de seus estudos com dopamina, reabilitou o sono REM como sonho e compatibilizou Freud novamente com a neurociência. Em seguida, Winson (1985), estudando o papel do ritmo Teta de ondas cerebrais, endossou a idéia de que os sonhos têm sentido subjetivo, podendo ainda refletir um mecanismo de processamento de memórias herdado de espécies inferiores.

E, atualmente, há uma grande polêmica entre os neurocientistas: parte considera o sonho resultante de processos meramente fisiológicos, enquanto outros acreditam que ele também é causado por processos mentais, seguindo a lógica freudiana.

Estudando a propagação, criação e simulação de memórias e fazendo uma ampla revisão bibliográfica e uma síntese atual da pesquisa neurocientífica sobre o sono, Ribeiro e Nicolelis (2004) defendem que o onírico tem um papel importante na consolidação de vários tipos de memória, desempenhando um papel fundamental no aprendizado. Observando como o gene zif 268, associado ao aprendizado, é ativado seletivamente durante o sono REM, os cientistas chegaram à conclusão que o sono REM tem criatividade. Embora o fortalecimento e a reestruturação das memórias sejam funções cognitivas do sonhar, há ainda uma simulação dos futuros possíveis. Os sonhos são seqüências hiperassociativas das memórias fragmentadas, que simulam eventos passados e expectativas futuras de forma a gerar soluções para os desafios cognitivos enfrentados pelo sonhador. O sonho, assim, seria uma forma de selecionar alternativas e orientar decisões (1992, 126).

Sonhar para organizar lembranças e o aprendizado ou sonhar para esquecer? Para Crick (1995) o sono REM é um processo de aprendizado ao contrário ou desaprendizado, um programa de autolimpeza que descarta as informações desnecessárias. Para Ribeiro e Nicolelis, no entanto, não há diferença: o sono REM tanto nos esquecer como organiza nossas lembranças, sendo capaz de simular situações futuras com base no processamento de informações passadas.

Volta-se, assim, ao mesmo ponto em que Artemidoro, Freud & Jung chegaram: há sonhos referenciados no passado (o sono de onde lentas) e há sonhos referenciados na simulação do futuro (o sono REM). Porém, as pesquisas de Ribeiro e Nicolelis sobre o sonho abriram um horizonte bastante amplo de estudos e atualmente há diferentes pesquisas neurocientíficas em andamento: o desenvolvimento filogenético do sonho REM em relação à evolução das espécies (RIBEIRO, 2004); o desenvolvimento ontogenético do sonho REM em relação ao crescimento infantil humano e à plasticidade do cérebro (FRANK, 2004); o estudo dos pesadelos e dos distúrbios pós-traumáticos (PERES; MERCANTE; NASELLO, 2005); entre outros.

3.       O Sonho Coletivo

Para os cientistas, o sonhar é uma atividade cognitiva individual que ocorre durante uma parte do sono; mas para o xamanismo e outros aportes esotéricos, o sonho é a atividade mais abrangente e profunda, englobando a imaginação, o pensamento e os cinco sentidos. O sonhar, nessa perspectiva ampliada, se confunde com a percepção coletiva que fazemos do mundo. Como se tornou lugar comum dizer: “um sonho que se sonha só, é só um sonho; mas um sonho que se sonha em comum torna-se realidade”.

Segundo Ivan Bystrina (1995), há três níveis inter-relacionados de codificação de mensagens: o código primário ou hipo-lingüístico, em que os processos vitais são operações de câmbio informacional que operam através de sinais simples e se organizam a partir da experiência; o código secundário ou lingüístico, um sistema institucional de cognição coletiva; e o código terciário ou hiper-lingüístico ou a segunda realidade, construída para perpetuar mensagens para futuras gerações. E a segunda realidade formada por nossos sonhos e desejos profundos tem origem em quatro fontes possíveis: o sonho, as doenças mentais, o êxtase místico e os jogos.

Nesta ótica, a segunda realidade é o universo simbólico. Fossemos escrever uma história do sonhar coletivo, o primeiro passo seria o sonho da Caverna de Platão:

Acorrentados de costas para a luz em um cárcere subterrâneo, os prisioneiros só podem ver, do mundo exterior, as sombras projetadas no fundo da Caverna. Caso um dos prisioneiros se libertasse e retornasse ao mundo exterior, perceberia que o mundo no qual vivia era irreal e inconsciente; formada por sombras e reflexos das coisas. O prisioneiro correria sério risco de vida se, retornando ao interior da caverna, procurasse revelar aos seus antigos companheiros a irrealidade do mundo em que se encontram. Provavelmente, eles o matariam.

A história da caverna é uma alusão direta ao destino de Sócrates, professor de Platão, forçado a beber veneno pela democracia ateniense, acusado de romper a juventude. Platão chegou então à conclusão de que “não é possível ser justo em uma cidade injusta”. É preciso construir uma sociedade justa, capaz de produzir homens justos. Essa é a proposta de A República (PLATÃO, 2004), o primeiro livro que se conhece sobre Utopia, a idéia de construção de uma sociedade perfeita, produtora de homens perfeitos. E o sonho da Caverna dividiu o mundo em duas realidades: uma sensível e ilusória e outra; distante, verdadeira e inteligível.

Santo Agostinho, outro mestre na arte do sonhar, fez do interior da caverna a memória das coisas dos homens e do mundo exterior, a memória das coisas de Deus. Jesus substituiu Sócrates como o redentor e o unificador dos dois mundos. Para o criador da doutrina do pecado original, há uma Cidade de Deus paralela à Cidade dos Homens (como a realidade sensível e o mundo inteligível de Platão). Agostinho colocou a utopia platônica como um objetivo histórico da humanidade: ao ser expulso do Éden, o homem dissociou o universo, Cristo reabriu a passagem entre os mundos e o retorno à Nova Jerusalém será a reunificação das cidades.

E o sonho da Cidade Santa no Final dos Tempos deu um sentido à história e um destino para humanidade.

Vivemos em um universo dividido entre o que sentimos e o que pensamos, mas caminhamos para sua unificação escatológica. Para Agostinho, no entanto, o tempo só existe no presente e só é visível através da linguagem; o passado só existe na memória, o futuro só existe na imaginação. O ‘fim dos tempos’ é o fim dessa sensação de continuidade no espaço provocada pela morte; o apocalipse é a revelação da ordem arquetípica, a eternidade de onde nunca saímos inteiramente.

Vários outros sonhos menores se desdobram deste sonho magistral: o sonho do retorno do messias, o sonho da democracia de Rousseau e o sonho da conspiração em um mundo governado pelo mal. Há uma grande diferença entre um sonhador de sonhos vivos e um pensador idealista. O sonhador imagina novas idéias e crenças que se tornam sonhos vivos para futuras gerações; e o idealista é apenas analista irrealista, que geralmente segue idéias e crenças já formuladas.

Certo dia, pelo início do século XVII, René Descartes sonhou que o Universo era um gigantesco relógio e que Deus era um relojoeiro, recusando as explicações escolásticas de que eram as virtudes humanas que determinavam os acontecimentos e que as forças divinas atuavam diretamente sobre o destino humano.

E o sonho do universo-máquina nos tornou seres mecânicos e o cartesianismo se tornou senso comum.

Autores contemporâneos criticam o pensamento cartesiano em seu aspecto racionalista (o método da dúvida sistemática, a dissociação do tempo do espaço nos eixos cartesianos, a idéia de plano geométrico dissociado do espaço real), porém não conseguem superar o sonho de Descartes. Fritjoff Capra, por exemplo, gostaria de romper com o paradigma mecanicista de que o mundo é uma máquina e definir o universo como um sistema biológico complexo, mas ainda vive e pensa dentro de um universo-máquina.

O diretor Roberto Rosselini fez uma série de documentários para TV italiana sobre filósofos. O episódios sobre Descartes mostra que o filósofo não era um homem contemplativo, mas sim um soldado francês, um homem de ação extremamente inteligente e curioso, que se retirou de seu país em virtude dos atritos entre católicos e protestantes, indo residir na Holanda. Descartes era um homem religioso que gostava de matemática e lógica, e não aceitava as explicações da escolástica e do neoplatonismo para o mundo físico. Ele se entregava de coração às questões do Discurso de Método que investigava e se orientava através de seus sonhos. Em nenhum momento, ele quis negar a teologia cristã, mas sim completá-la de forma mais realista, com a dissociação entre corpo e alma.

Porém, depois de Descartes, todos passaram a seguir, mesmo involuntariamente, suas orientações para o espírito pensante, o sonho que torna a ciência possível.

E durante a modernidade (esta imagem objetiva e coisificada que fazemos de nós mesmos), fomos prisioneiros da própria ilusão, forçados a sobreviver em mundo violento e sem sentido, jogados em um universo frio e sem alma, não passamos, aos olhos da ciência objetiva, de bolinhas de carne girando em uma bola de pedra em torno de uma grande bola de fogo. Mas, Eu não sou uma bola de carne, a Terra não é uma bola de pedra e o Sol não é uma bola de fogo. Por outro lado, também não podemos retroceder ao passado, considerando os astros como são deuses e recolocando o observador como sujeito no centro do universo, como se fazia antes da ciência objetiva e da modernidade.

4.       O sonho nagual

Homem, Mulher; Luz, Trevas; Vida, Morte - vivemos em um universo de polaridades opostas. Mas, interpretamos essas polaridades de diferentes formas. Algumas tradições mais antigas tratam as polaridades de opostos de uma forma ainda mais diferente e, aparentemente, incompreensível para o pensamento científico: o Paradoxo. O deus Abraxás de Creta antiga, Janus dos Romanos e o par Tonal/Nagual nas Américas são exemplos de deuses de "duas faces" paradoxais, isto é, de uma concepção em que a polaridade de opostos que dá origem a vida e ao universo que não comporta nenhuma forma de totalização ou unificação globalizante. Aliás, talvez algumas de nossas polaridades dialéticas e dialógicas (Vida/Morte, Bem/Mal, Ser/não-Ser) sejam também paradoxos que nos recusamos a aceitar.

Nas mitologias pré-colombianas, os deuses gêmeos também desempenham um papel central. Para os toltecas mais do que deuses, o tonal e o nagual são princípios cognitivos e realidades paralelas.

Três mil anos atrás havia um ser humano, que vivia perto de uma cidade cercada de montanhas. (...) Um dia, enquanto dormia numa caverna, sonhou que viu o próprio corpo dormindo. Saiu da caverna numa noite de lua nova. O céu estava claro e ele enxergou milhares de estrelas. (...) Olhou para suas mãos, sentiu seu corpo e escutou sua própria voz dizendo: “Sou feito de luz; sou feito de estrelas.” Olhou novamente para o alto e percebeu que não eram as estrelas que criavam a luz, mas sim a luz que criava as estrelas. “Tudo é feito de luz”, acrescentou ele, “e o espaço no meio não é vazio.” (...) Então, ele compreendeu que, embora fosse feito de estrelas, ele não era essas estrelas. “Sou o que existe entre elas”, pensou. Assim, chamou as estrelas de tonal e o espaço entre os dois nagual, e percebeu que a harmonia e o espaço entre os dois eram criados pela Vida ou Intento. (RUIZ; 2005, 13 e 14.)

Há sempre uma dupla realidade, uma simetria entre o lado de dentro e o de fora, o micro e o macrocosmo. No campo filosófico há, para Platão, um mundo sensível-concreto e outro inteligível-abstrato; uma cidade dos homens e uma cidade de Deus para Santo Agostinho; para Descartes, coisas extensas e objetos virtuais. Com Kant, há uma inversão de perspectiva: a realidade deixa de ser uma percepção e passa a ser uma interpretação. O mundo externo se torna uma projeção estruturada do sujeito, a simetria torna-se um reflexo invertido.

No campo religioso também há simetria, mas é o metafísico que se reflete no físico: “assim em cima, como embaixo” - expressão presente não apenas nas Tábuas de Esmeralda de Hermes Trimegisto, mas presente em todas as grandes tradições, como a chinesa (céu e a terra), a indiana (o universo-templo e o corpo-templo), e a ocidental (o homem como a imagem e semelhança de Deus). No humanismo iluminista, há cruzamento desses dois modos de representação simétricos, o filosófico e o tradicional, em que o homem ocupa o lugar central (como na tradição judaica cristã), mas o universo externo que enquadra e determina a experiência subjetiva (como crê a modernidade). Para Carlos Castaneda, a simetria entre a cognição ordinária e a extraordinária é um paradoxo insuperável para o qual não existe totalização ou unificação globalizante. O Mundo e a Consciência são termos irredutíveis.

Para as tradições, a simetria é dada como certa (o mundo material é um desdobramento denso dos universos sutis); para modernidade, a simetria é parcial e invertida (o subjetivo parcialmente reflete a realidade total); para Castaneda, não há simetria ontológica (nem reflexividade entre dimensões paralelas): os objetos é que são duplos construídos intersubjetivamente em um único plano imanente bifacetado - como a onda e a partícula.

Para o xamanismo, o sonhar é a base de toda experiência cognitiva: sonhamos o tempo todo todos juntos, seja dormindo ou quando estamos acordados (mesmo agora estamos sonhando: eu escrevendo e você lendo esse texto). A diferença é o enquadramento mental-sensorial no estado de vigília (ou tonal) da percepção da energia sem realidade sensorial dos estados alterados de consciência (ou nagual). Os conceitos de Tonal e Nagual representam campos perceptivos opostos e complementares, em que o primeiro é nossa percepção ordinária (sensorial-mental) do mundo como algo formado por objetos concretos e coisas sólidas; e o último é a percepção de que estamos em um universo de relações, em que tudo é feito de energia em diferentes níveis de organização e de adaptação.

Mas, há também diferentes interpretações dessa dualidade. Enquanto Ruiz sonha em salvar a terra e a humanidade, Castaneda intenta antes salvar-se do destino da humanidade de ser absorvido pela terra.

Para don Miguel Ruiz (2005), há dois sonhos coletivos: o sonho que chamamos de realidade – “o tonal, a primeira atenção, o sonho do inferno” – e o sonho dos guerreiros - “o nagual, o sonho da segunda atenção”. Para ele, o sistema de crenças é uma estrutura parasita de energia. Vivemos em um sonho coletivo que nos aliena de nossas vidas e nos mantêm cativos em uma realidade virtual. Somos prisioneiros uma ‘Matrix’ formado por crenças e valores.

Há, assim, um sonho coletivo - ''sonho do inferno'' ou ''sonho do planeta'' – e nossos sonhos pessoais. Em nossa formação pela família, pela escola e pela sociedade, nossos sonhos pessoais são “domesticados através do medo”, pois nos tornamos escravos das expectativas alheias e de nossas próprias exigências. Medo não simplesmente de ser punido ou morto, mas principalmente de ser rejeitado, de não ser amado. Segundo Ruiz, é preciso retomar nossa capacidade de sonhar, libertando nosso sonho pessoal do sonho coletivo do medo de exclusão; e também é necessário, em conjunto com outros sonhadores, compreender e transformar esse sonho social de destruição planetária, para que as futuras gerações possam viver em harmonia com a Terra e consigo mesmas.

Já para Carlos Castaneda, o tonal é uma ilha (ou bolha da percepção) e o nagual a um oceano-universo que o engloba: o mar escuro da consciência. A vida orgânica (o tonal) é uma gota em um verso inorgânico. A tarefa do xamã é sair individualmente do seu ovo tonal e viver em um universo nagual, deixando para trás a condição humana. Castaneda considera a existência de dois mundos paralelos (o mundo das coisas e o das relações entre energias); e o nagual é visto como o aspecto vibracional do universo, constituído de energia e de relações entre diferentes estados de ser.

5.       Perguntas

O filme Matrix combina os sonhos da caverna, da utopia e o do universo mecânico, fantasiando sonhar uma saída para nosso mundo, mas fica apenas no plano da imaginação. O verdadeiro sonhar implica em criar um caminho antes inimaginável; em abrir novas perspectivas, e não simplesmente tecendo fantasias com mitos cristalizados pelas tradições.

Aliás, há várias histórias e contos sobre essa temática, do qual se destaca O sonho de mil gatos, de Neil Gaiman (Sandman #18), em que um gato sonha que sua espécie já dominou o planeta, porém, uma vez que os felinos deixaram de sonhar, sua espécie passou a ser dominada pelo sonho coletivo dos seres humanos. No dia em que mil gatos sonharem, no entanto, o sonho felino triunfará novamente e os homens voltarão a sua condição original.

Será que a generalização social dos sonhos lúcidos nos levará a um salto evolutivo quântico da consciência humana de grandes proporções? Será que, ‘quando mil homens sonharem com lucidez’, o sonho coletivo humano sobre o planeta se tornará consciente de si e de seu papel no universo?