quinta-feira, 25 de junho de 2026

Memórias Emprestadas

Vinícius Calafange 


Quando o pai de Lucas morreu, a única coisa que deixou para trás foi um gravador velho e uma caixa cheia de fitas cassete. Durante meses, Lucas evitou ouvi-las. O luto já era difícil o bastante. Mas, numa madrugada de insônia, ele finalmente decidiu apertar o play.

A gravação começou com a voz familiar do pai:

— Se você está ouvindo isso, provavelmente eu já fui embora.

Lucas esboçou um pequeno sorriso.

Algumas fitas continham histórias da infância do pai. Outras, lembranças de viagens, conselhos ou reflexões aleatórias sobre a vida. Mas uma fita era diferente das outras. Nela, seu pai parecia nervoso.

— Se alguém da empresa vier atrás dessas gravações, destrua tudo.

Lucas franziu a testa.

A empresa em questão era a Memora, uma startup especializada em arquivamento digital de memórias. Alguns anos antes, ela havia desenvolvido um sistema capaz de armazenar lembranças humanas em bancos de dados, permitindo que pessoas revisitassem momentos específicos da própria vida. A tecnologia fez sucesso rapidamente.

O restante da fita era confuso, mas uma frase ficou gravada em sua mente:

— Algumas memórias não pertencem a quem as viveu.

Intrigado, Lucas começou a investigar.

Descobriu que seu pai havia trabalhado nos primeiros testes da Memora. Mais do que isso: ele participou da criação de um recurso secreto capaz de transferir lembranças entre pessoas.

A ideia inicial era ajudar pacientes com perda severa de memória. Porém, os resultados foram desastrosos. Muitos participantes passaram a confundir suas próprias experiências com as de desconhecidos.

O projeto foi encerrado. Ou pelo menos era o que os documentos oficiais diziam.

Quanto mais pesquisava, mais Lucas percebia algo estranho. Algumas de suas lembranças de infância não apareciam em fotografias da família. Certos lugares dos quais se recordava nunca haviam sido visitados por ele.

Uma tarde, encontrou uma fita escondida dentro do gravador. Sem rótulo. Sem data.

— Lucas, se chegou até aqui, provavelmente começou a perceber.

Seu coração acelerou.

— O acidente que você sofreu quando criança foi pior do que todos acreditam. Você perdeu quase todas as memórias da infância. Para que continuasse sendo você, utilizamos o protótipo. Implantamos suas memórias a partir das lembranças de outras pessoas.

Lucas sentiu o chão desaparecer.

— Eu sabia que um dia você descobriria. A questão é: isso realmente importa?

A fita terminou.

Durante semanas, ele ficou obcecado. Passou a questionar cada recordação. A praia que lembrava. O cachorro da infância. As brincadeiras no quintal. Nada parecia o mesmo.

Finalmente, ele decidiu conversar com sua mãe. Levou a caixa de fitas até a casa dela e a colocou sobre a mesa da sala.

Sua mãe estava sentada numa poltrona, as mãos entrelaçadas e os olhos fixos na madeira da caixa. Parecia estar esperando aquele momento havia anos.

— Precisamos conversar.

Lucas puxou uma cadeira e se sentou.

— Eu ouvi as gravações.

A mãe fechou os olhos por um instante.

— Eu imaginei.

— Então é verdade?

O silêncio que se seguiu pareceu interminável.

— É.

Lucas sentiu um aperto no peito.

— Eu perdi minhas memórias?

Ela respirou fundo.

— Aquele acidente foi muito mais grave do que você se lembra. Os médicos não acreditavam que você conseguiria superar. Você acordou sem reconhecer ninguém. Nem a mim. Nem ao seu pai.

Lucas desviou o olhar.

— E vocês decidiram colocar lembranças de outras pessoas na minha cabeça.

— Nós estávamos desesperados.

— Então tudo é mentira?

A pergunta saiu mais agressiva do que ele pretendia. A mãe não respondeu imediatamente.

— Você se lembra da vez em que caiu da bicicleta e voltou para casa chorando?

— Sim.

— Quem cuidou dos seus joelhos machucados?

Lucas hesitou.

— Você.

— E quando teve medo de dormir sozinho?

— Você ficava sentada ao lado da minha cama.

— E quando passou na prova de matemática que passou horas estudando?

— Vocês comemoraram comigo.

Ela sorriu de leve.

— Isso aconteceu de verdade.

— Mas as lembranças...

— Durante anos — continuou ela — eu também fiquei me perguntando quem você era. Se ainda era meu filho. Se aquele menino tinha desaparecido para sempre.

— E o que você concluiu?

A mãe demorou a responder.

— Que você continuava sendo você.

Lucas soltou uma risada amarga.

— Como?

— Porque as memórias não são uma pessoa inteira.

Ela apontou para o peito dele.

— O que faz você rir das próprias piadas ruins? O que faz você ajudar estranhos sem esperar nada em troca? O que fez você passar meses tentando descobrir a verdade em vez de simplesmente ignorá-la?

Lucas não respondeu.

— Isso não veio de uma gravação. Não veio de um banco de dados. Veio de você.

Os olhos dele começaram a marejar.

— Mas eu não sei quais lembranças são reais.

— Nem eu.

A resposta o surpreendeu.

— O quê?

— Você acha que eu me lembro de tudo exatamente como aconteceu? Ninguém lembra. Nós reconstruímos o passado o tempo inteiro. Mudamos detalhes, esquecemos partes, inventamos explicações. As memórias sempre foram imperfeitas.

Lucas observou a caixa de fitas.

— Então não importa?

— Importa, sim. Faz parte da sua história.

Ela segurou a mão dele.

— Mas a pergunta errada é "essas memórias são minhas?". A pergunta certa é: "o que eu fiz com elas?".

Lucas sentiu a garganta apertar.

— Eu passei semanas tentando descobrir quem eu era antes do acidente.

— E encontrou?

Ele pensou por alguns segundos.

Então balançou a cabeça.

— Não.

— Porque essa pessoa não existe mais. Assim como eu não sou a mesma mulher de vinte anos atrás.

Ela apertou sua mão.

— Você não é definido pelo que lembra. É definido pelo que escolhe fazer a partir dessas lembranças.

Lucas ficou em silêncio por um longo tempo. Pela primeira vez desde que descobrira a verdade, não sentiu raiva.

Olhou para a mãe. Depois para a caixa de fitas.

E percebeu que talvez estivesse procurando sua identidade no lugar errado. Talvez ela nunca tivesse estado no passado. Talvez estivesse ali, naquela cozinha, em todas as escolhas que fizera desde então.

Mesmo sem saber exatamente de onde vinham, aquelas lembranças eram suas.

 

O EXÍLIO

 Julya Oliveira

O mundo parece muito maior agora. E eu não tenho mais nome.

Somos apenas fugitivos, refugiados sem refúgio. Os sentimentos reservados a pessoas como nós são o repúdio ou a pena. Alguns lamentam profundamente o que aconteceu conosco, mas não podem estender a mão.

Quem éramos, quem sonhávamos ser… isso não importa mais.

A guerra tornou-se mais sangrenta do que imaginávamos, e aqueles que conseguiram escapar encontraram outra: uma batalha de muros, fronteiras e portas fechadas.

Agora, mendigamos por pão e por misericórdia.

Encontramos, sim, uma compaixão temporária, que logo foi substituída por olhares atravessados. De repente, aqueles que me distribuíam cobertores arrancavam de mim a segurança que antes me aquecia.

Compreendi, dolorosamente, como os efeitos das guerras civis e da tirania dos homens nos perseguem mesmo à longa distância.

Para piorar, o mundo costuma contar as guerras pelos mortos que deixam para trás. Ninguém se lembra muito dos vivos.

Estou em um barco pequeno, cercado por pessoas cujos rostos mal consigo distinguir. À nossa volta, há apenas a imensidão do mar.

Enquanto tento me aquecer, temo que os habitantes destas águas decidam que também não pertencemos aqui; que o oceano erga suas próprias fronteiras e brade, em alta voz, que precisamos voltar para casa.

 

Nota da autora: 

Este texto nasceu de reflexões sobre a realidade dos refugiados e das vítimas de guerras civis, a partir da série O Conto da Aia, adaptação televisiva do romance distópico O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), da escritora canadense Margaret Atwood

Inspirou-me, especialmente, a ideia de que o mundo costuma contabilizar os mortos e lamentar as tragédias, mas raramente se detém sobre a vida daqueles que sobreviveram e precisam conviver com o exílio, a perda de identidade e a constante busca por pertencimento.

Sangue nas mãos

Paulo Vinicius 


Robert não lembra de quando começou a lutar, mas já não aguenta mais. Estava num campo de batalha, lutando numa guerra que o rei Arnol declarava “santa”, tinha plena certeza que os deuses já os tinham abandonado, não existia nada de justo ou divino na matança que realizavam a 6 meses.


A guerra era sempre igual, reis e generais se reuniam em suas massas, comiam e bebiam de maneira luxuriosa como porcos enquanto os jovens morriam aos milhares, os políticos começaram a guerra mas não perderam nada com ela. Os clérigos não eram melhores, se qualquer local ou objeto fosse chamado de sagrado eles fariam de tudo para pôr suas mãos, evenenariam as mentes dos pobres com uma lavagem cerebral chamada de devoção e puniram quem perguntasse demais, assim criaram seu exército de fanáticos.


É mais fácil fazer os soldados matarem quando acreditarem que os inimigos tão semelhantes a eles são monstros indignos de empatia, desprovidos de alma e que desconhecem a verdadeira face da justiça e dos deuses.


Robert sangrava abaixo do gorjal com elos despedaçados, sua cabeça latejava onde o elmo fora amassado por um golpe de machado, seu ombro esquerdo doía pelo esforço de erguer o escudo e absorver os golpes, cada golfada de ar em seus pulmões ardia, um movimento a sua esquerda o fez se mover, uma lança tentou perfurar seu ventre, ele subiu o escudo e golpeou com a espada por baixo.


O atacante caiu e urrou de dor, ainda estava vivo. Robert subiu a espada e então o olhou era um garoto, não tinha mais que 18 anos, o sangue do jovem escorreu da lâmina para mão do homem, novamente suas mãos estavam sujas e ele recordou com pesar.


Estava na praça de uma vila, onde um camponês discursava contra a igreja, dizia que os deuses não se serviam da chacina que os guerreiros faziam em seu nome, que choravam quando viam tamanha desgraça e covardia, Robert e os outros soldados não gostaram, Robert e o homem discutiram e quando o discursante o chamou de assassino de inocentes o guerreiro explodiu, jamais matou alguém que não pudesse se defender, irado socou o camponês, que morreu após bater a cabeça contra pedra, então entendeu o que o homem disse.


Mais do que nunca o guerreiro sentiu a ausência dos deuses e até mesmo do que lhe fazia humano, se viu novamente na mesma situação, com o rapaz amedrontado olhando seus olhos e perscrutando sua alma, abaixou a arma e disse “finja de morto e volte para casa garoto”, deu as costas e partiu, desejou que tivessem dito o mesmo para ele quando era jovem



segunda-feira, 15 de junho de 2026

Jardim dos Relógios

A Menina e o Jardim dos Relógios Perdidos


Izabelle Vicente Gomes


Em uma tarde comum de céu acinzentado, Clara estava sentada perto da janela de seu quarto, observando as gotas de chuva deslizarem pelo vidro. Enquanto folheava distraidamente um livro antigo encontrado no sótão de sua avó, percebeu algo estranho: entre as páginas havia um pequeno relógio de bolso que parecia funcionar ao contrário. Os ponteiros giravam em sentido inverso, como se o tempo estivesse voltando.

Curiosa, Clara abriu a tampa do relógio e encontrou uma inscrição gravada em letras douradas: "Para quem deseja descobrir o que existe além das horas." Assim que terminou de ler, ouviu um som suave, parecido com o toque distante de sinos. O relógio começou a brilhar, e um pequeno feixe de luz apontou para o armário do quarto.

Sem entender exatamente o que estava acontecendo, Clara se aproximou. Ao tocar a porta do armário, ela se abriu sozinha, revelando não suas roupas, mas um longo corredor iluminado por lanternas flutuantes. Tomada pela curiosidade, a menina respirou fundo e entrou.

O corredor parecia não ter fim. As paredes eram cobertas por relógios de todos os tamanhos, formatos e cores. Alguns tinham apenas um ponteiro, outros giravam tão rápido que era impossível acompanhar. Após alguns minutos caminhando, Clara chegou a um enorme jardim cercado por árvores de cristal. Ali, flores coloridas conversavam entre si e discutiam sobre qual estação do ano era a mais bonita.

— Uma humana! — exclamou uma margarida azul.

— Faz séculos que não vemos uma! — respondeu uma rosa dourada.

Clara arregalou os olhos. Ela nunca imaginou conversar com flores.

— Onde estou? — perguntou.

— No Jardim dos Relógios Perdidos — respondeu a margarida. — Um lugar onde vêm parar todas as horas esquecidas pelos humanos.

A explicação parecia absurda, mas naquele lugar nada parecia seguir as regras do mundo comum.

Enquanto explorava o jardim, Clara encontrou um senhor muito peculiar sentado sobre uma pilha de despertadores. Ele usava um chapéu enorme decorado com calendários antigos e escrevia números em folhas que desapareciam segundos depois.

— Ah, finalmente você chegou! — disse ele, sem sequer olhar para a menina.

— Finalmente? Mas eu acabei de chegar.

— Exatamente. Chegou exatamente quando deveria chegar, nem antes nem depois.

A resposta não ajudou muito.

O estranho senhor se apresentou como Guardião das Horas Esquecidas e explicou que aquele mundo estava enfrentando um problema. Um misterioso vento havia espalhado os minutos e as horas por diferentes regiões do jardim. Sem eles, o tempo daquele lugar estava ficando confuso. Algumas árvores permaneciam eternamente na primavera, enquanto outras envelheciam em poucos segundos.

— E o que eu posso fazer? — perguntou Clara.

— Encontrar os Fragmentos do Tempo — respondeu o guardião. — Os habitantes daqui não conseguem vê-los, mas humanos conseguem.

Sem saber exatamente porquê, Clara aceitou a missão.

Sua jornada a levou por lugares extraordinários. Ela atravessou um lago onde os reflexos tinham vontade própria e faziam caretas para quem os observava. Passou por uma ponte construída com notas musicais e visitou uma cidade onde as casas mudavam de lugar toda vez que alguém piscava os olhos.

Em cada local, encontrou um fragmento brilhante do tempo. Alguns estavam escondidos dentro de bolhas flutuantes; outros, protegidos por enigmas curiosos. Aos poucos, Clara percebeu que aqueles fragmentos não representavam apenas horas e minutos. Cada um guardava uma lembrança esquecida: o primeiro sorriso de uma criança, uma tarde de brincadeiras, um abraço entre amigos, uma história contada antes de dormir.

Quanto mais avançava, mais compreendia que o tempo não era apenas algo marcado pelos relógios. Era feito também das experiências que davam significado aos dias.

Após reunir todos os fragmentos, Clara retornou ao Jardim dos Relógios Perdidos. O Guardião uniu as pequenas luzes em uma esfera luminosa que subiu ao céu. Imediatamente, o lugar começou a se transformar. As flores voltaram a florescer em seu ritmo natural, os relógios encontraram seus ponteiros perdidos e as árvores de cristal brilharam como estrelas.

Os habitantes comemoraram com uma grande festa. Havia músicas tocadas por pássaros mecânicos, doces que mudavam de sabor a cada mordida e lanternas que desenhavam histórias no ar.

Quando a celebração terminou, o Guardião entregou o relógio de bolso a Clara.

— Agora você sabe o segredo — disse ele.

— Qual segredo?

— Que o tempo vale mais quando é vivido do que quando é contado.

Antes que Clara pudesse responder, uma luz envolveu tudo ao seu redor.

Quando abriu os olhos, estava novamente em seu quarto. A chuva havia parado, e o livro antigo continuava sobre suas pernas. Por um instante, ela pensou que tudo não passara de um sonho.

Então ouviu um som familiar.

Tic-tac.

Em sua mão estava o relógio de bolso. Desta vez, os ponteiros giravam normalmente.

Clara sorriu. Talvez ninguém acreditasse em sua aventura, mas isso não importava. Ela havia aprendido algo que levaria para sempre: os momentos mais preciosos da vida não são aqueles que passam mais devagar ou mais rápido, mas aqueles que nos fazem esquecer de olhar para o relógio.

E, desde aquele dia, sempre que via as horas correndo depressa demais, lembrava-se do Jardim dos Relógios Perdidos e de todas as maravilhas escondidas além do tempo.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

no intento


O Propósito de um Paladino 
  
João Victtor Oliveira da Silva 
 

O grupo de aventureiros era formado por cinco companheiros improváveis, mas inseparáveis: Rael, um elfo mago milenar conhecido por sua rigidez com regras e tradições; Mug, um anão bárbaro de pavio curtíssimo; Peren, um clérigo humano cuja bondade parecia não ter limites; Tuk, um gentil goblin inventor fascinado por máquinas e autômatos; e Waldemar, um paladino humano de coração nobre, sempre atraído pelo chamado da aventura. 

Durante três anos, os cinco percorreram reinos, florestas e masmorras. Viveram histórias que seriam contadas por gerações: desde o resgate de um felino de estimação pertencente a uma nobre arrogante até a batalha contra uma terrível entidade feérica que ameaçava mergulhar um reino inteiro nas sombras. Houve momentos em que a morte parecia inevitável, quando monstros cercavam o grupo ou quando a esperança parecia desaparecer. Mas, unidos, eles sempre encontravam uma forma de vencer. Juntos, eram praticamente imbatíveis.  

Porém, como acontece com todas as grandes histórias, chegou o momento em que seus caminhos se separaram.  

Rael retornou ao reino dos elfos e tornou-se professor na Academia Arcana, dedicando-se à formação de futuros magos. Mug voltou para sua tribo nas montanhas e, graças aos feitos conquistados, assumiu a posição de líder. Peren escolheu uma vida de peregrinação, viajando de aldeia em aldeia para oferecer cura e conforto aos necessitados. Tuk realizou o sonho que cultivava desde jovem e abriu uma das mais renomadas oficinas de golens da capital. Apenas Waldemar continuou na estrada. 

Durante um ano inteiro, o paladino aventurou-se sozinho. Seu nome espalhou-se pelos reinos, e logo passou a ser conhecido como o Paladino da Coragem. Muitos admiravam seus feitos, mas poucos compreendiam o risco que corria. Aventurar-se sem companheiros era quase uma sentença de morte. Um passo em falso, uma emboscada inesperada ou um inimigo mais forte poderiam significar o fim. Mesmo assim, Waldemar persistia. 

Até que, certa noite, encontrou Mug em uma taverna. O anão estava sentado próximo ao balcão, segurando uma enorme caneca de cerveja. Quando Waldemar contou algumas de suas aventuras solitárias, Mug balançou a cabeça e soltou uma gargalhada. 

— Você ficou louco, Waldemar! — exclamou. 

— Se está com tanta pressa para encontrar seu deus, basta explorar as masmorras do reino dos anões. Lá os monstros resolverão isso rapidinho. 

Waldemar sorriu diante da provocação, mas logo seu semblante tornou-se sério. 

— Não é isso, Mug. Eu continuo viajando, continuo lutando... mas sinto como se tivesse perdido meu propósito. 

O anão permaneceu em silêncio por alguns instantes. 

— Então volte para casa — respondeu. — Talvez lá você encontre a resposta. Talvez precise lembrar por que se tornou um paladino... e por que escolheu a vida de aventureiro. 

As palavras de Mug permaneceram na mente de Waldemar durante toda a viagem de retorno. Seu destino era Pilar da Sereia, uma cidade costeira famosa pelas especiarias marítimas, pelos pescadores e pelo cheiro constante de maresia trazido pelo vento. Foi ali que crescera e onde dera seus primeiros passos como guerreiro. 

Certo dia, caminhando pela cidade, decidiu visitar o quartel onde havia treinado quando tinha apenas quinze anos. Ao chegar, observou um capitão instruindo um grupo de jovens recrutas. Eles repetiam os movimentos do capitão. Alguns erravam, outros acertavam, mas todos escutavam atentamente cada orientação. Por um instante, o paladino se viu entre eles novamente, um garoto sonhando em conhecer o mundo além do mar.  

Então compreendeu. Não sentia falta das aventuras; sentia falta de compartilhá-las – orientar, ensinar e inspirar outros a trilhar seus próprios caminhos. Seis meses depois, uma nova construção surgiu em Pilar da Sereia: a primeira guilda de aventureiros da cidade. 

Waldemar tornou-se seu fundador e mestre, pois havia descoberto que nem toda aventura exige atravessar oceanos ou derrotar monstros. Algumas aventuras começam quando estendemos a mão para alguém e o ajudamos a dar o primeiro passo. E enquanto a Guilda permanecesse de pé, novas histórias continuariam a nascer sob sua orientação.  

terça-feira, 9 de junho de 2026

sempre pela primeira vez

 

Como se Fosse a Primeira Vez

Ester Tavares

A primeira coisa que percebo é que estou acordada.

Por que estava dormindo ou como dormi nessa cama? Essa parte eu não sei.

Em seguida, percebo que estou em um quarto, que é particularmente bem estiloso, quem decorou deveria se orgulhar do trabalho que fez.

É quase como se eu mesma tivesse feito, mas não tenho nenhuma certeza sobre isso. Analisando a decoração, vejo coisas que acho que deveriam ser familiares, mas não consigo lembrar de nada em especial, na verdade, não tenho memória nenhuma.

Antes de me desesperar por ter dormido em um lugar desconhecido, vejo o que tenho ao meu redor: um armário de três portas com espelho, onde consigo ver meu reflexo, e percebo que se conseguir sair daqui, tenho que arrumar esse ninho que está o meu cabelo. Acho que também preciso ver se dentro do armário tem algo melhor para vestir, essa roupa que dormi não é muito digna pra olhares desconhecidos e potencialmente curiosos.

Ao lado, vejo a porta aberta do que parece ser um banheiro (Ufaa), e ao lado uma porta fechada, que provavelmente deve dar em outro cômodo, mas que também não sei qual é. Mas como eu cheguei aqui sem passar por ele ? E se passei, por que não lembro qual é ?

Continuo explorando, encontro uma bolsa, um copo vazio, itens de higiene pessoal, um cabideiro, uma cômoda, um cd escrito para você, uma par de pantufas, pera, que cd é esse ?

Está escrito “Para Você”, e não tem mais ninguém além de mim aqui, então… Mas onde vejo isso ?

Olhando mais ao lado, vejo uma tv e um aparelho de dvd, só pode ser ali.

Ligo a tv com o controle que encontro na lateral e insiro o cd no entrada, e então… Eu apareço na tela. Pelo menos, o recado deve ser de mim pra mim mesma.

- Bom dia, Ester, tudo bem ?

Esse é o meu nome, então ?

- Sim, esse é o seu nome.

Pelo menos eu sei como minha cabeça funciona, que deve ser muito mal

- Não, sua cabeça não está ruim, pelo menos não ficou assim, a gente meio que tem isso de nascença. Que animador.

- Vamos ao o que interessa, o nosso cérebro meio que formata quando a gente dorme, por isso você não lembra como chegou nesse quarto, nem o que fez antes, ele apaga todas essas informações, pelo visto nosso cérebro guarda só informações muito bem estabelecidas, como nome de objetos ou como as coisas funcionam, mas acha que saber como aprendemos isso não é relevante o bastante pra ser guardado.

Aahhh, por isso eu sei o que são todas as coisas no quarto. Poxa cérebro, eu queria lembrar disso.

- Essa é o nosso quarto, que dividimos com nossa melhor amiga, a Safira, ela sabe da nossa condição e vai te ajudar a se situar do resto dos afazeres do dia de hoje. Nós trabalhamos em uma editora de livros, e seu trabalho é revisar textos, conhecimentoque seu cérebro não excluiu, ainda bem. É com esse emprego que mantemos essa casa, então vá se arrumar pra não se atrasar. Um xero. Pelo visto, essa é a minha vida. Acordar sem memória, viver o dia, dormir e esquecer de tudo.

E no dia seguinte, repete o ciclo. Será que ninguém inventou uma cura pra isso ainda ? Bem, se tivesse, eu lembraria, por que estaria curada.

Bom, melhor seguir meu próprio conselho, se for esperar minha memória voltar, talvez fique aqui pra sempre.

Como trabalho em uma editora de livros, acho que o código de vestimenta não seja tão rígido, então visto o conjunto de moletom mais bonitinho que acho no armário e vou pro banheiro me arrumar. Pelo menos, aparento me cuidar bem pela quantidade de produtos em cima da pia do banheiro.

Me arrumo, tomo coragem e abro a porta e me deparo uma escada, desço e vejo aquela que deve ser a Safira, acho que consigo ver por que é minha melhor amiga, ela claramente tem um ótimo senso de estilo e uma grande juba que acho belíssima. Provavelmente ela me recomendou aqueles produtos pra cabelo.

- Então hoje estamos na vibe do moletom arrumado, perfeito, tenho zero intenções de ser muito ousada hoje.

Tá, ela realmente me conhece, e pelo visto, mesmo que de forma inconsciente, pareço ter lgum tipo de padrão de comportamento que ela consegue diferenciar. Ao menos um pouco de normalidade do meu cérebro.

Bom, lá vou eu descobrir a minha vida.

Edward Mãos de Tesouras

 


Fábio Henrique Costa de Oliveira

Há algum tempo, um inventor criou muitas coisas; entre elas, um homem. Concedeu-lhe orgãos, vida e intenção. Contudo, sua obra permaneceu inacabada: o inventor era velho e morreu antes de concluir a criatura que havia criado. Assim, deixou-o sozinho, incompleto. Seu nome era Edward. Em vez de mãos, possuía tesouras; o rosto era marcado por cicatrizes, e sua companhia mais constante era o silêncio.

Edward, embora calado, era intensamente presente. Seus olhos pareciam atravessar a alma, enquanto seus ouvidos permaneciam atentos aos ruídos e movimentos do mundo. O silêncio, em sua narrativa, torna-se um espaço de acolhimento da alteridade. Em um mundo atroz, tomado pela verborragia, poucos são aqueles que verdadeiramente se dispõem a escutar.

Em determinado momento, Pegg Boggs pergunta o que lhe acontecera. Edward responde, taciturnamente:

— Estou inacabado.

Talvez uma das respostas mais profundamente perlaborativas do cinema, pois, diante da finitude da vida, quem está realmente pronto? Quem pode dizer-se concluído? Resta-nos sempre algo entre o excesso e a falta: o vazio, as destraduções, os sentidos que transbordam e aqueles que jamais se completam. Edward Mãos de Tesouras  é, de longe, meu filme predileto, porque me ensinou, desde muito cedo, que o silêncio pode, e talvez deva, ser experienciado e respeitado. O silêncio é uma arte em tela, um território onde a verdade encontra espaço para emergir.