O mundo parece muito maior agora. E eu não tenho mais nome.
Somos apenas fugitivos, refugiados sem refúgio. Os sentimentos reservados a pessoas como nós são o repúdio ou a pena. Alguns lamentam profundamente o que aconteceu conosco, mas não podem estender a mão.
Quem éramos, quem sonhávamos ser… isso não importa mais.
A guerra tornou-se mais sangrenta do que imaginávamos, e aqueles que conseguiram escapar encontraram outra: uma batalha de muros, fronteiras e portas fechadas.
Agora, mendigamos por pão e por misericórdia.
Encontramos, sim, uma compaixão temporária, que logo foi substituída por olhares atravessados. De repente, aqueles que me distribuíam cobertores arrancavam de mim a segurança que antes me aquecia.
Compreendi, dolorosamente, como os efeitos das guerras civis e da tirania dos homens nos perseguem mesmo à longa distância.
Para piorar, o mundo costuma contar as guerras pelos mortos que deixam para trás. Ninguém se lembra muito dos vivos.
Estou em um barco pequeno, cercado por pessoas cujos rostos mal consigo distinguir. À nossa volta, há apenas a imensidão do mar.
Enquanto tento me aquecer, temo que os habitantes destas águas decidam que também não pertencemos aqui; que o oceano erga suas próprias fronteiras e brade, em alta voz, que precisamos voltar para casa.
Nota da autora:
Este texto nasceu de reflexões sobre a realidade dos refugiados e das vítimas de guerras civis, a partir da série O Conto da Aia, adaptação televisiva do romance distópico O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), da escritora canadense Margaret Atwood
Inspirou-me, especialmente, a ideia de que o mundo costuma contabilizar os mortos e lamentar as tragédias, mas raramente se detém sobre a vida daqueles que sobreviveram e precisam conviver com o exílio, a perda de identidade e a constante busca por pertencimento.

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