quinta-feira, 25 de junho de 2026

Sangue nas mãos

Paulo Vinicius 


Robert não lembra de quando começou a lutar, mas já não aguenta mais. Estava num campo de batalha, lutando numa guerra que o rei Arnol declarava “santa”, tinha plena certeza que os deuses já os tinham abandonado, não existia nada de justo ou divino na matança que realizavam a 6 meses.


A guerra era sempre igual, reis e generais se reuniam em suas massas, comiam e bebiam de maneira luxuriosa como porcos enquanto os jovens morriam aos milhares, os políticos começaram a guerra mas não perderam nada com ela. Os clérigos não eram melhores, se qualquer local ou objeto fosse chamado de sagrado eles fariam de tudo para pôr suas mãos, evenenariam as mentes dos pobres com uma lavagem cerebral chamada de devoção e puniram quem perguntasse demais, assim criaram seu exército de fanáticos.


É mais fácil fazer os soldados matarem quando acreditarem que os inimigos tão semelhantes a eles são monstros indignos de empatia, desprovidos de alma e que desconhecem a verdadeira face da justiça e dos deuses.


Robert sangrava abaixo do gorjal com elos despedaçados, sua cabeça latejava onde o elmo fora amassado por um golpe de machado, seu ombro esquerdo doía pelo esforço de erguer o escudo e absorver os golpes, cada golfada de ar em seus pulmões ardia, um movimento a sua esquerda o fez se mover, uma lança tentou perfurar seu ventre, ele subiu o escudo e golpeou com a espada por baixo.


O atacante caiu e urrou de dor, ainda estava vivo. Robert subiu a espada e então o olhou era um garoto, não tinha mais que 18 anos, o sangue do jovem escorreu da lâmina para mão do homem, novamente suas mãos estavam sujas e ele recordou com pesar.


Estava na praça de uma vila, onde um camponês discursava contra a igreja, dizia que os deuses não se serviam da chacina que os guerreiros faziam em seu nome, que choravam quando viam tamanha desgraça e covardia, Robert e os outros soldados não gostaram, Robert e o homem discutiram e quando o discursante o chamou de assassino de inocentes o guerreiro explodiu, jamais matou alguém que não pudesse se defender, irado socou o camponês, que morreu após bater a cabeça contra pedra, então entendeu o que o homem disse.


Mais do que nunca o guerreiro sentiu a ausência dos deuses e até mesmo do que lhe fazia humano, se viu novamente na mesma situação, com o rapaz amedrontado olhando seus olhos e perscrutando sua alma, abaixou a arma e disse “finja de morto e volte para casa garoto”, deu as costas e partiu, desejou que tivessem dito o mesmo para ele quando era jovem



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